domingo, 25 de dezembro de 2011

segunda-feira, 11 de julho de 2011

Antena





Não há salvação possível fora da imitação do silêncio. Mas a nossa loquacidade é pré-natal. Raça de tagarelas, de espermatozóides verbosos, estamos quimicamente ligados à Palavra: Emil Cioran.




A televisão tinha deixado de dar há dois dias. O Tio Sam disse que devia ser por causa do ninho das cegonhas na antena. Muitas cegonhas morriam electrocutadas em toda a Provença, as televisões deixavam de dar. O sistema de televisão terrestre digital estava a alterar isso. Muitas pessoas metiam também televisão por cabo. Mas na nossa zona ainda não funcionava. O Tio abriu uma garrafa de cerveja e bebeu directamente pelo gargalo. Fazia muito calor. A avó dormia. O tio sugeriu que fossemos para o quintal fazer um boneco de palha, com um ninho de cegonhas por cima da cabeça. Para as cegonhas irem para lá e deixarem a antena. Eu fui com ele. Passamos a tarde toda a apanhar palha. O tio dava nós nos molhos de palha que faziam os braços e os pés. Depois a cabeça. Ao fim da tarde o boneco ficou pronto. Depois o tio foi buscar uma escada e pô-la junto ao poste com a antena. O ninho estava vazio. Fiquei a segurar a escada. O tio apanhou o ninho, trouxe-o para baixo com cuidado até ao terceiro degrau e passou-mo para as mãos, no cimo de uma antena. Mostrou-me o ninho. Tinha dois ovos. A avó tinha acordado e ido ao jardim e também viu os ovos. Disse que os queria para os fazer estrelados com compota de morango e salsichas brancas pequenas. Disse que isso lhe fazia lembrar quando era pequenina. Mas o avô e eu não deixamos e os ovos ficaram nos ninhos. Fizemos uma pausa para ir lanchar e fomos para a cozinha. Depois o tio meteu o ninho no cimo do boneco. Fui buscar dois novelos de lã branca que eram da avó e que serviram para fazer os olhos. O avô cozeu os olhos ao boneco, depois metemos-lhe uns óculos de sol. O tio cozeu o ninho à cabeça do boneco. Ficamos sentados à espera que a cegonha chegasse.
A avó disse que a televisão já estava a dar e começou a ver um concurso. Adormeceu outra vez. Vimos a cegonha vir pela janela. O tio disse que ela devia ter cerca de um metro de altura. Ficamos a espreitá-la de dentro para não se assustar. Parecia que não estranhava o novo ninho. Era como se ele sempre tivesse estado aí. Ficava muito bem no cimo do boneco. Via-se o sol pôr-se ao fundo da seara. O tio foi buscar outra cerveja ao frigorífico. Mudou de canal. Eu também me sentei. Estava a dar a notícia de que dois aviões tinham batido nas torres gémeas. Ficamos a ver com atenção. As imagens repetiam-se. Estávamos todos assustados. De vez em quando viam-se pequeninos pontinhos a caírem dos prédios. Essas imagens alternavam com a das torres a ruírem pelo meio. O apresentador falava muito rápido. Outras vezes os pontinhos caíam. Perguntei ao tio se eram pessoas. O tio não respondeu. Perguntei outra vez, o silêncio apoderou-se da sala.

sexta-feira, 8 de julho de 2011

Alegoria Final

Escrever é inscrever no interior de um círculo o exterior de todos os círculos: Maurice Blanchot

I.

A amnésia segura uma estrela-do-mar, mete-a entre as mamas, está viva. É adocicada a sua parte de baixo, as suas pontas engrossam, incham entre os seios quentes - A estrela-do-mar incha de prazer e de recordações, como que alimentada por um espasmo solar que se reflecte nos olhos da Amnésia.



II.
Todas as recordações provêm do sol, é ele o único actor, representa as sombras, e representa a luz, representa toda a natureza humana como criador absoluto. A estrela incha, todas as suas pontas aumentam com o calor. Ela entra no mar, mergulha, atira a estrela para as ondas. Nunca tinha dormido, tratava-se de uma estrela-do-mar autista. Eterna como qualquer gesto humano ausente de simbolismo. Pelo último mito, a amnésia mergulha. Depois já em casa, a amnésia, puxa a luz de dentro do peito de Artur: Puxa-a devagar do tronco nu.

Há como esquecer a viagem, mas não há como acordar.




III.

Tudo foi uma noite, pensa Artur, uma noite com Cassandra, que não esquece. Uma noite de chumbo que durou mais de um milénio. Um milénio com que brinca um gato, como se fosse um novelo fluorescente feito de noite.

A amnésia tem um campo de algodão no lugar do peito. Mas o peito é perfeito. É feito de carne e não de luz, embora os fotões o atravessem, como atravessam todas as coisas vivas, sempre à procura de algo, como quem tem sede, ou quer simplesmente nadar.

Não tenho mãos, não tenho boca, só tenho memórias, memórias que caem líquidas como azeite que escorre da boca de um paralítico. Cronos limpa-a, ajeita-a, mete-lhe a algália.



IV.

Cassandra também não esquece,
Acaricia o peito de Artur.
Também ele não dorme
Porque o dia é citrino, em tudo citrino:

Há obsessões que se repetem como um jogo de voleibol entre o futuro e o futuro. Em campo-contra-campo. A Amnésia mergulha no mar: Esquece.

A visão parcial e fragmentada é necessária. A obsessão é necessária, é o único acto universal, guia-nos até à sobrevivência. Anula-nos os limites. Transfere-os para níveis mais elevados de consciência. A Amnésia beija Artur na boca, e o novelo corta-se em várias pontas; fragmenta-se a consciência, quebra-se a narrativa, todas, pelo esquecimento que se apodera de tudo. A sombra dos girassóis deixa de existir. A sombra dos homens deixa de existir. Acabou a representação – Começa o jogo verdadeiro. A Amnésia puxa a luz do corpo de Artur. Todas as pontas se acendem.


V.

Artur sonha com fios, com nós, coisas que ligam: os lobos transformam-se em meninos e descem pela Suécia em direcção às estações de metro de todo o continente. São ciganos. Sentam-se em frente de cada hipermercado. Mas isso não se passou verdadeiramente.
A literatura nunca existiu,
Diz Cassandra – Porque o único suporte permitido, agora, é o calor. E ele não regista. É só ponta e sensação que aumenta o novelo, engrossa as pontas da estrela. Ela está excitada, nas mamas da Amnésia. Artur escrevia duas novelas: "duas variantes do mito de orfeu", e "a vitalidade dos rapazes jovens".

Mas a Amnésia beijou-o na boca e ele perdeu o fio condutor.




VI.

O dia com Cassandra era impossível esquecer. A amnésia anda a rondar-nos, a mim e a Cassandra. A memória mais pura, cristalizada na boca de um paralítico. Cronos limpa-lhe os beiços. Numa cara atómica, que é a de todos: Não esquecer faz os rios descerem. O mar é já só esquecimento, uma pequena morte; se no fundo do Mediterrâneo está um nigeriano com algas nos pulmões isso não simboliza nada. Apenas faz com que a moral seja como a libido de um pedófilo. Porém, fizeram-lhe uma castração química. E agora a sua cara arde. E a mensagem é a própria cara.

O minotauro está a chorar, e a verdade é que vários helicópteros ergueram com cabos o labirinto no ar. E o seu sofrimento ficou exposto. Está a ser filmado para a BBC o último mito e dele se fará um manifesto, um manifesto que vai com o vento, que anda de bicicleta, um manifesto pedófilo com a cara a arder. O mensageiro é a única mensagem.

Ouve, nunca houve mensagem, libertei o sono da sua caixa azul para os homens dormirem, e os homens dormiram e do seu sono nasceu a Amnésia.

Da insónia nasceu Cassandra. As duas são gémeas. Dormem com os braços e pernas entrelaçados, as bocas juntas, a mesma e única respiração quente, e são agora já só uma e a mesma coisa, porque se fundiu memória e esquecimento.

Só, uma mulher vem à janela, e liga o mp3, ouve Nina Simone, acende um cigarro. Liga para Artur pelo telemóvel. Há dias citrinos em que Cronos corre demais, tem à sua frente o caminho mas come o caminho, e depois não fica nada, só um livro para ler.




VII.

A luz é filha de Cassandra e do Tempo. Os dois criaram o dia – As memórias provêm do sol. O labirinto tende para o mar. Se a Amnésia me beijasse na boca tenderia para o mar, mas foi Cassandra quem me abraçou.


VIII.

Numa seara da Boémia, duas ceifeiras colhem trigo, uma conta para outra a noite que passou com o seu amigo: Um louva-a-deus olha para elas.

Na Provença os louva-a-deus são vistos como insectos adoradores do diabo, pelas suas patas fixas para o céu. Seja como for, adoram algo, adoram como quem está vivo. As ceifeiras riem-se. A visão do louva-a-deus é fragmentada. Os louva-a-deus fêmea arrancam a cabeça do macho durante o sexo, no exacto momento em que este se está a vir. As ceifeiras colhem o trigo e riem-se.

Contava-se que no deserto um eremita com muita sede e fome, viu um louva-a-deus. Seguiu o caminho que as patas do insecto indicavam, ele estava em posição de abandono, numa quase meta-morte que o protegia dos predadores pensando-o inanimado. O eremita seguiu para sul. Pouco mais à frente viu um prado com um rio. Aí alimentou-se e bebeu. Mais tarde voltou ao local com vários eremitas para aí criar uma cidade em forma de estrela. Mandou vir fabricantes de sinos, adoradores de ídolos, construtores de telhas e de tijolos. Vários fornos foram montados para fazerem tijolos para as torres latinas. No cimo de cada torre havia um sino: um menino também que o badalava. No centro da cidade em forma de estrela estava um pequeno palácio de vidro. Aí dentro estava guardado o esquecimento. Quem lá entrasse não teria uma única recordação mais na sua vida. Toda a memória se ia. Depois as memórias de todos iam por pequeninos canais para o Nilo e desaguavam no Mediterrâneo. As memórias engrossavam as estrelas-do-mar e eram o seu único alimento: gorduroso, extremamente táctil e vital mas invisível. Como se fosse uma medusa, a mais perversa medusa, a memória amamentava-as, aumentava as pontas da rede. Mas de que rede se poderia falar? De uma invisível, única. Por uma visão fragmentada as meninas desciam os rios em direcção ao Mar Negro.



IX.

O homem não legitima, a luz legítima

Entra trémula na casa da possibilidade, oferece-se aos homens. A possibilidade sopra a noite de dentro dos búzios, e a noite cai, espalha-se em rede, os homens dormem e, enquanto dormem, o sol sopra a noite para cima devagar. A amnésia lambe-me os ouvidos, o farol dá o sinal – Há simbologias recorrentes no seu uso da escrita:

A alegoria é sempre doce e azeda ao mesmo tempo, a alegoria é citrina, ácida, tende para os pólos, para os unir. A vigília lambe-me os pulsos e faz com que eu seja todos os narradores, estou no centro da torre latina, a espera é extremamente ácida. Estou dentro da amnésia, venho-me dentro dela, ficamos abraçados, a anulação do medo é a morte, a morte entra no quarto, com o seu rabo aceso. Não vou personificar mais nenhum sentimento ou estado. Pois todos os estados são fêmea, como duas irmãs gémeas.

O homem não legitima, a luz legítima: A memória chora leite condensado para cima da Escócia – Como se fosse neve, dentro das órbitas dos olhos o sol reflectido

A minha profissão é a de guarda, guardo uma pirâmide, um supermercado, um rebanho, uma multinacional de próteses, um segredo, ou um olhar doce e triste, não sei bem o que guardo, mas guardo com todas as minhas forças, na retina, no meta-plasma, faço uma gravura daquilo que guardo.

O homem não legitima, só a luz legítima.




X.

Fragmento-me, uno-me dentro da amnésia, com Cassandra a puxar a minha luz, ela sai silenciosa. O avião levantou voo, e não há como arrebentar, cair, aterrar, só há como estar em cima. Sou a vontade em tudo malhada de te ver sorrir, espalho-me. A mulher sai da água.....................................................................................................................

Cronos espalha-se dentro dela, ela lambe-lhe os pulsos, Cronos possui a amnésia, o seu sexo incha de prazer, a respiração é cada vez mais rápida. Ela tem uma faca na mesinha de cabeceira. Cronos está prestes a perder todas as memórias. Está-se a vir: A amnésia está por cima, possuída de um prazer extremo - espeta-lhe a faca nas costas. O tempo pára ......................................................................

A amnésia segura uma cidade santa na mão, pela alegoria mais doce injecta leite condensado no peito: Aqui o novelo desenrola-se todo, a natureza humana cria a rede, a natureza humana precisa da rede. A rede viola as filhas da revolução, estão meias de licra espalhadas por toda a cidade. A rede infiltra-se em todos os corações – A meio do caminho há uma puma, devora o caminho para trás, mete a cabeça no forno, escreve a primeira ode, a primeira ode vai com o vento,

é o fim da poesia,
toda ela entra nos casulos,
uma procissão de búfalos subaquáticos atravessa a cidade.

Um dia as águas vão subir e vão trazer o Rober, é a natureza humana que fala.




XI

Um imperador chinês mandou que destruíssem todos os livros, queimados pelo fogo, mandou preservar apenas os tratados de medicina e de jardinagem, também um ou outro texto que falasse da imortalidade, construiu uma muralha que cobrisse todo o império: A rede entrou no império. Mas o imperador mandou que os jardineiros fossem cortar as pontas à rede. Mas a rede é invisível, não se vêem as pontas. Também não se vêem os nós que elas fazem: A amnésia segura uma cidade santa na mão e um farol na outra. Desenha um círculo a giz. No meio está um sapo, escreve o nome "Cassandra" num papel, e mete o papel na boca do sapo. Depois coze a boca do sapo e enterra-o vivo. Mete terra no buraco. O sapo morre asfixiado. Cronos está dentro dela – Mas está morto. Não há acção possível, foi tudo como um mergulho da ficção na realidade. Mas quem voltou à superfície não trazia cara alguma – Trazia a cara de todos. A amnésia dá-nos a mão, procura um fio condutor, corta esse fio condutor, a novela fragmenta-se... A luz trémula brilha nos olhos negros de Cassandra.

quinta-feira, 23 de junho de 2011

Duas variantes de coisas que ligam

Dormia com um labirinto de espuma dentro de si: o criador da escrita, através da qual todas as narrativas seriam feitas. Tinha no pulso um relógio em decomposição, orgânico e perene como qualquer gesto. De vez em quando os fios do labirinto ficavam da cor do âmbar e aí as pessoas perdiam-se porque só conseguiam olhar para os muros. No centro estava um touro quente. Disse-me um anjo que o labirinto estava desnivelado e tendia para o mar. Quinze eram as entradas e as saídas. A música também entrava no labirinto e ela perdia-se como todos e como todos desenhava a saída no ar. Dormia com o labirinto dentro. Cassandra, a que nada esquece, entrava no labirinto e encontrava a amnésia bem no centro. A amnésia transportava pólen nas patas de uns contos para os outros e ia fertilizando o estilo novo. Ele dormia, há quinze séculos, sem se aperceber que as águas tinham subido até ao quarto andar. E os blocos de notas estavam todos molhados. Também estavam molhadas as fotografias. A amnésia mete gel no cabelo, e uma mini-saia vermelha. Está no centro do labirinto que ora é um labirinto ora é uma rede. As pessoas perdem-se na mesma. É da natureza das pessoas perderem-se, é tão natural como um movimento de vanguarda, como uma abelha, como um copo de água. O labirinto é em tudo líquido embora por vezes as suas paredes congelem. Cassandra deita-se com a amnésia. E o psicólogo perguntava – O que é que inventou afinal? – A escrita – Respondia o labirinto – O mar cobria o psicólogo, depois o mar inundava o labirinto e ficavam algas no meio e bem no centro um esqueleto de baleia. Dormia com várias coisas que ligam dentro dele – Tens de te pôr nos olhos dos outros – Disse-me o caderno quadriculado, ou foi a minha mãe? As pessoas perdem-se na mesma, para se encontrarem. Do outro lado da morte – Dizia o labirinto através de um estranho eco. O eco descalçava-se e entrava no mar, e no continente seguinte ouvia-se o mesmo poema em métrica sáfica. O poema a lavrar os campos de trigo da América – Na forma de tractor. As pessoas perdem-se na mesma e por cima delas o sol brilha e reflecte-se nos espelhos do veleiro. Escreveu "Alegoria final" e "Composição sobre o gelo". Deitou-se (com o labirinto dentro) nunca tinha dormido.

Coisas que ligam

Tu que tudo desatas, prende-me novamente, animal invencível, amor
Safo

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Cassandra está na praia a fazer barquinhos de papel, de um caderno preto, com poemas seus de há muito tempo. Faz mais de cem barquinhos, depois entra no mar e vai pondo os barcos na água; Vê alguns irem ao fundo, outros são arrastados para areia. Alguns deles desaparecem, vão com as ondas. Um dos barcos tem escrito a marcador "Sentir é dois" – Outros versos do Rilke vão pelo mar dentro.

Vem ter à praia um veleiro, e nesse veleiro vem a amnésia: com os seus pés quadriculados e luvas brancas. A amnésia mergulha e nada até à areia. A amnésia segura Cassandra, beija-a na boca. As duas ficam de mãos dadas, mergulham. O mensageiro toca num piano de uma esplanada da praia a "petite suite" de António Fragoso: fica a ver, com as mãos trémulas, as duas a nadaram. A mensagem é o próprio mensageiro. Os barcos de papel vão cada vez mais longe.
A amnésia possui Cassandra debaixo de água. Cassandra esquece, esquece-se de tudo. O dia está roxo.


A amnésia conduz Cassandra a um túnel que passa por baixo da América - Abre a caixinha do sono, o sono liberta-se e os homens dormem. Cassandra dorme por fim; Nunca tinha dormido. E do seu sono cria-se a música, o primeiro esquecimento que corrige a vida: Começa a vida nova.

A amnésia cria a noite, e da noite faz o medo. O medo é quadriculado e chora cal para cima do seu diário. Um choro ácido que queima o papel e deixa furos no caderno de uma vida. Depois fecha o diário e atira as chaves ao mar - A amnésia cria outras coisas que ligam, e dá as coisas que ligam aos homens. Dá-lhes a rede, a possibilidade, o medo e o dia. A amnésia beija o nosso século na boca, dá-lhe de beber, a bebida é uma rede líquida, uma rede que parece âmbar. O nosso século lambe a amnésia – Antes isto tudo era mar – Há um esqueleto de baleia no cimo desta serra; O escritor mete o sono num círculo, o círculo está fechado. Ninguém dorme. Os que têm as chaves protegem o círculo. Os sinos dobram. O círculo é fluorescente. Um futuro antiquário compra o círculo do sono. Há quinze mil anos atrás. Porque nunca dormiu. A amnésia lê o diário – Hà lá várias frases sublinhadas, citações de Cesariny, Cioran. A amnésia tem a noite na mão, dá a noite a comer a uma cotovia, e a cotovia levanta voo, e vai deixando cair bcados de noite do bico por onde passa, da Austrália ao Cabo Horn tudo fica escura. Depois volta para o seu ninho. Adormece.


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sexta-feira, 17 de junho de 2011

A mais negra

I.

A memória dobra-se, estende-se pelos campos cheios de pirilampos – Sou ela, nado no fundo do lago de Patrícia; estou em todas as línguas, nas suas fronteiras quentes e fluorescentes – Passo: passo sempre, segura: preciso de calor, tenho a boca torta cheia de medo e o coração recheado de leite condensado: No meu útero um relâmpago, bebo o caminho que tenho à frente porque o futuro é líquido, derrete-me da boca. Sou a possibilidade em tudo múltipla de te ver sorrir : Recheio-te de estrelas – Nunca lhes cortarei as pontas, nunca lhes cortarei as pontas – Deixá-las crescerem, entrarem na rede, precisamos da rede, mas comemo-la; ela equilibra-nos, mas ela faz-nos perder - as pontas da estrela crescem outra vez: Entram nas casas: Do Pólo Norte à Austrália. Na Nova Zelândia abrem a porta à estrela, ela entra, cheia de sede, porque procura, procura perder-se no interior do humano, duplo-poço contínuo. Sou a memória, uma rede contínua, às vezes estendem-me pelos campos,tapo os pirilampos com o meu manto de seda e vêem-se várias luzes fluorescentes sobre o pano que sou eu

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II.

Estou agora num ringue de gelo em Viena, e as tropas aliadas estão prestes a entrar aqui, a ficção mergulha na realidade, escrevo um verso de Rilke no gelo "Sentir é dois"; "Amar é mais" completa um outro patinador que vem atrás de mim, o registo é logo apagado por outros patinadores, outras linhas se sobrepõe a mim, memória última: no gelo, na comunicação, na história da humanidade – O patinador que me segue escreve outro poema, e as linhas dos patins no gelo tornam-se fluorescentes por instante, enquanto os americanos entram na cidade lê-se um poema que fala de perenidade, de gelo e de girassóis, o poema é assinado por Alma Mahler, sujeito poético do patinador que me segue. No gelo escreve outros aforismos aos quais logo se sobrepõem outras riscas de patins – Nunca se apagou nada até hoje, sempre se falou/escreveu/criou por cima, apagar é impossível, apenas é possível renovar, revitalizar, criar por cima – Os patins são de marca – Sou a memória: tenho uns patins suiços, de marca, já competi na Suécia, já estive dentro dos cactos: Ao meu lado dorme um homem que quer esquecer – Acorda, levanta-me a saia beje, fala de Alma Mahler, fala-me de um avião que como todos aviões não pode cair, não pode voar, não pode arrebentar, apenas lhe é permitido subir e chegar ao seu destino: A torre latina de escada em caracol tomba, o continente treme de líbido, não se consegue conter mais, do Perú ao Equador todos os faróis dão o sinal, uma pirâmide de fogo está em fuga contínua pelo deserto. Meteste-me pirilampos no cabelo, no porto de Lima, à noite escura, num sopro quente de Verão: o Chile parte-se ao meio - a amnésia beija-nos na boca – Temos caminho à nossa frente e bebemo-lo – A amnésia diz: isto e aquilo deve ser esquecido, e por isso a pirâmide cavalga, em fogo, cheia de botijas de gás dentro. A tempestade beija a amnésia. Nossa Senhora da fertilidade recheia-me o útero de relâmpagos e cerejas – A amnésia mete a música entre as pernas, é a pintora mais perversa; pinta árvores, mete céu entre as árvores – Possuí a música que possuí o céu, que possuí a cidade – Os muros precisam de ajuda, toca um trompete do quarto andar, por uma alegoria mais doce, a ficção mergulha na realidade. Atirei a chave do diário para o fundo do mar, o farol acendeu-se.


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III.

Levantaram-me as saias nas traseiras do convento, um homem que quer esquecer, injecto-lhe uma vontade Nova nos olhos, vejo-os descerem pela montanha, alguém me escreveu uma carta: Não te esqueças de ir para a varanda ver esses olhos verdes passarem/ fugirem/ desaguarem no mar – Vejo todos os olhos em fuga, todos os olhares a descerem pela montanha, a dobrarem-se sobre o seu próprio eixo, por uma visão Plena* Uma visão que tudo abarca, todos os sentidos a fazerem tremer a terra: ela não aguenta mais o seu líbido e treme; Sou a mais obssessiva de todas as paixões, tenho um gorro azul que a loucura me deu – E não consigo esquecer, como Cassandra, tudo absorvo, como uma esponja da alma condenada à mais doce e pergisa das penas, nada esquecer – A patinadora escreve agora uma ode de Ricardo Reis, depois uma de Petrarca e um homem sentado ao lado do ringue aponta tudo numa mortalha, todos os poemas, depois enrola tabaco nas mortalhas e fuma-os – No gelo as marcas também desaparecem, a letra carolina de uma caligrafia perfeita fica com riscos por cima – São agora muitos os patinadores. Os exércitos americanos entram na cidade. Viena está pronta para ser aliada. A guerra é agora um fio com que brinca um gato, um fio que une os pólos. Um fio que é um dia de chumbo. Pedi ao patinador que me segue que personificasse um sentimento: ele personificou o medo: Escreveu que ele era quadriculado e em tudo geométrico, como o voo previsivel de uma mosca, mas que tudo agarra por trás como uma rede. Levantaram-me as saias nas traseiras de um convento, um homem que quer esquecer: a minha saia é curta e beje – Vejo do canto do espelho três pastorinhos búlgaros, os que velam: para que seja noite e dia ao mesmo tempo, um dia roxo – A amnésia beija-nos na boca, a ficção mergulha na realidade – Vejo-a passar de bicicleta ao lado do Farol de Alexandria, com os barcos ao fundo, os amantes ao fundo; ao fundo também eu, novelo que faz esquecer – Que as minhas mãos ardam se me esquecer dos teus olhos – Estamos na Guerra Colonial, estou na líbido de um soldado português:

- E então eu dizia às pretas: Punho Punho – E elas batiam-me uma punheta.

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Apressei o fim da história, virei todas as páginas com os meus dedos compridos: os sósias do fundo alimentam-se da minha líbido: Estou no lago quente de Patrícia, onde todos os que aquecem se banham. Os sósias do fundo são só um: o mesmo homem com a mesma touca às riscas. Olham-se num espelho Barroco abandonado no fundo do lago. De vez em quando inventam a escrita para que novas civilizações contem as suas histórias, as transmitam aos seus descendentes: Tornam a Literatura Possível – Injectam leite condensado na Estrela para que as suas pontas cresçam com mais força: A literatura entra em todas as casas, acende todos – Dormem no meio das balizas subaquáticas. O seu empate é uma forma de amor. De que falamos quando falamos dele? Um diário de uma vida cai de um vigésimo andar. A amnésia possuí o mar, permite as marés, permite a lua que se recheia de encontros. A amnésia leva pólen nas patas, para outro continente. Um abraço pré-hispânico em tudo eterno há-de polarizar todos os movimentos, todos os gestos humanos, toda a Vida* O que há antes dela? Depois dela? Apenas pólen nas patas, um ramo de violetas e uns patins de marca. Os canhões americanos rodeiam o ringue de gelo.

quarta-feira, 8 de junho de 2011

Meta-sono


Que a amnésia nunca nos beije na boca
: Roberto Bolaño – Manifesto Infrarrealista



O sono descalça-se, desenha o trigo a aguarela,
Amarelo que foge com o vento,
o sono descalça-se.
Como um fabricante de sinos do futuro,
o lavrar subaquático dos campos de Marte:
mudámos as linhas, todas,
acelarámo-as em direcção ao coração;
Jiacina abre a caixinha do sono, ele expande-se em rede,
como uma estrela fluorescente,
entra nas casas, nos prédios, nos edifícios municipais,
os homens dormem:
O sono põe céu entre as árvores
e põe céu entre as casas, e põe o céu entre as pernas –
o céu permite a música,
o céu acorda a música,
o céu possuí a música –
A música põe o céu entre as pernas,
como uma cabeça viva, extremamente viva –
O orgasmo das raparigas é clitorial – o céu sabe isso –
O céu lambe a música, o sono foge para dentro dos búzios
com as suas meias de lã grossa, de fora,
por uma alegoria mais doce injectamos leite condensado no peito,
na sede de contar uma história hiper-real
recheámos uma estrela suicida de memórias,
ela escreve a giz no espelho que o sono venceu o medo,
e que a música venceu o medo:
a casa é mais ampla agora, o arado sulca a terra fluorescente,
pelo fim de todos os símbolos damos a mão,
pelo último mito bebemos da boca:
uma só –
Lancetaram o útero à loucura
só ela pode ter filhos –
O amor é a união do medo com a música,
tinha a boca ao lado e a vontade de possuir tudo.
Jiacina liberta o sono,
ele cai da boca como leite condensado:
o sono têm a música entre as pernas –
Já só é possível a calma.