segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Luiz Pacheco

XXVI

Melhor que a mulher é o vinho
que faz esquecer a mulher...
que faz dum amor já velhinho
ressurgir novo prazer.


Finale, muito católico

XXVII


Asiim termina o Lamento
pois recordar é sofrer.
Ama e fode. É bom sustento!
E por nós reza um pater.


Luiz Pacheco in "Coro dos Cornudos" - Contraponto

SESSÃO DE POESIA MEXICANA - CAFÉ PROGRESSO / POETRIA




A Livraria Poetria realiza uma sessão de "Poesia mexicana" no próximo dia 2 de Outubro, pelas 21,30h. no Café Progresso, com leitura de poemas por José Carlos Tinoco, Cláudia Novais, Nuno Meireles e Susana Guimarães.

Será servido um cálice de tequila.

domingo, 28 de setembro de 2008

Emily Dickinson

657


Habito na possibilidade -
Uma casa mais bela do que a prosa –
Com mais janelas –
E portas - maiores

Salas como Cedros –
Que o Olhar não alcança –
E como Tecto Imperecível
Os limites do Céu –

Visitantes – os mais belos –
Ocupação – Esta –
Abrir ao máximo as minhas Mãos finas
Para colher o paraíso -



Emily Dickinson – tradução de Nuno Júdice

Os três pastorinhos búlgaros

Nossa Senhora não se esquece da Bulgária,
Depois da escola os três pastorinhos vão lanchar
Pães com manteiga molhados no café com leite
Leite quente – faz frio – na montanha
Muito frio na montanha BRRHh


Nossa Senhora não se esquece do povo búlgaro,
Dá-lhes frio quando é preciso e sol quando é preciso,
Quando é preciso os búlgaros também têm neve,
As ovelhas sobem a montanha seguindo os passos dos
Três pastorinhos – sobem as ovelhas, sobem as pessoas,
descem as ovelhas, descem as pessoas
descem a montanha, as pessoas e as ovelhas


Nossa senhora não se esquece da Bulgária
Aparece sempre bela e provocante aos búlgaros
no seu vestido de seda vermelha,
braços macios, não feitos de luz, mas de carne humana
ajoelham-se diante dela á sombra duma oliveira
Os três pastorinhos búlgaros


Nuno Brito 2008

Sylvia Plath - Daddy

Mário Cesariny - Há uma hora

sábado, 27 de setembro de 2008

As idólatras formigas do mal

O vento frio assobia e corre dentro do osso
Voando triste de um lado ao outro do esqueleto;
Sem medo,
Percorre-o até ao arrepio,
Os ossos das mãos, os finos ossos dos dedos,
As extremidades violentas das pessoas dentro dos carros pretos,
Passa um barco a apitar de uma ponta à outra do crânio


A medula, a caixa craniana ressoa
Quando batida como um tambor contra os faróis de um camião
A medula, A caixa craniana,
Os ossos das mãos, os finos ossos dos dedos
A Rússia inteira com fome,
Com todos os seus dedos e articulações

Sagrada família esculpida em açúcar
apocalipse em braille…
As idólatras formigas do mal comem um menino Jesus de açúcar



Nuno Brito, 2008